Por Calu
Se meus pais morressem hoje, minha herança não teria apartamento, casa na praia, carros nem jóias... Mas teria algo infinitamente mais valioso: meu caráter, minha relação com meus irmãos, meus valores, a pessoa que eu me tornei.
Cresci numa família de classe média-alta, mas nem por isso sempre tive tudo que pedi. Até hoje sou frustrada porque não tive o Forte Apache do Playmobil. Mas o que meus pais transmitiram com maestria para nós é que o SER, o SENTIR e o VIVER são muito mais valiosos do que o TER.
Cresci num lar aonde o apego material era praticamente inexistente. A gente ganhava presentes em datas especiais, e pelo que minha mãe falou a gente era igualzinho meus filhos são hoje: não passava um intervalo comercial sem que a gente dissesse 300 vezes: "Eu quero", "compra pra mim" e coisas do tipo.
Mas coube aos meus pais falar NÃO. Ensinar que as coisas são merecidas na vida, que existe hora certa para tudo, e que muitas vezes pequenos rituais e agrados são muito mais especiais do que qualquer presente. Tenho guardadas no coração lembranças tão doces da minha infância, e absolutamente nenhuma delas envolve algo "comprado". Só as que tem meu cachorro Prit, um vira-lata que nos custou 5 mil cruzeiros, que sairam de nossa mesada.
Não estou falando que a gente não tinha brinquedos, pelo contrário. Tinhamos muitos. mas eles não marcaram minha lembrança tanto quanto passeios, viagens, e pequenos rituais só nossos. E hoje estou criando meus próprios rituais com meus filhos, e vejo quanto isso marca a alma deles.
Eu cresci com esses valores impressos na minha alma, e hoje eles são parte fundamental de quem eu sou. Eu não tenho casa própria, por exemplo. E sinceramente não tenho a menor vontade de ter. Respeito quem sente segurança em ter uma casa própria e até entendo. Mas EU não gostaria de ter. Entre passar 20 anos pagando por um imóvel ou usar o dinheiro hoje para dar para meus filhos uma excelente escola, uma qualidade de vida boa, oportunidades, viagens, eu fico sem dúvida nenhuma com a segunda opção. Para mim é uma escolha entre um e outro, então tenho que optar. E eu opto pelo viver, pelo experimentar, pelo saborear, pelo sentir, pelo ser...
E hoje já começo a colher o fruto do trabalho que faço desde o dia que eles nasceram. E vejo que estou conseguindo -tanto quanto é humanamente possível para crianças de 4 anos- transmitir esse desapego das coisas materiais e valores infinitamente mais valiosos.
Algumas regras da nossa casa: Para família não se vende, se dá. / Um família tem que cuidar sempre um do outro / Nunca dedure seu irmão, olhe para os seus erros. / Divida.
Pequenos gestos que enchem meu coração de alegria e orgulho:
Estávamos na Casa do PAC (aquela casa que eu contei que vamos
aqui) e a Giovanna, 6 anos, estava no meu colo junto com a Alice. Eu propus para elas para fazermos um chá de bonecas na nossa próxima visita, e a Alice sugeriu que fosse um chá de Barbies. A Giovanna falou que ela não tinha nenhuma Barbie (nessa hora eu quase morri, queria levar ela pra casa!) e na mesma hora, sem eu me meter nem incentivar a Alice colocou a mão na mão dela e falou: "Não tem problema, eu tenho muitas, eu dou uma pra você"
No playground do McDonalds, a Alice chegou na mesa chorando porque um menino tinha chamado ela de bebê. O Dudu, que estava na mesa ainda comendo, levantou sem perguntar nada pra gente e começou a ir de mesa em mesa, interrogando os meninos maiores: "Foi você que chamou minha irmã d bebê?" Um por um. Pode parecer besteira, mas eu nunca vi ele se defender, mas quando a irmã estava magoada ele virou um leão!
São momentos como esses que me mostram que estou no caminho certo... Me provam que quando eu morrer vou deixar para eles a mais valiosa das heranças.
Extraído
Rede Mulher e Mãe