Cantinho dos Amigos

22 de fevereiro de 2011

Que herança você vai deixar para seus filhos?

Por Calu
Se meus pais morressem hoje, minha herança não teria apartamento, casa na praia, carros nem jóias... Mas teria algo infinitamente mais valioso: meu caráter, minha relação com meus irmãos, meus valores, a pessoa que eu me tornei.

Cresci numa família de classe média-alta, mas nem por isso sempre tive tudo que pedi. Até hoje sou frustrada porque não tive o Forte Apache do Playmobil. Mas o que meus pais transmitiram com maestria para nós é que o SER, o SENTIR e o VIVER são muito mais valiosos do que o TER.

Cresci num lar aonde o apego material era praticamente inexistente. A gente ganhava presentes em datas especiais, e pelo que minha mãe falou a gente era igualzinho meus filhos são hoje: não passava um intervalo comercial sem que a gente dissesse 300 vezes: "Eu quero", "compra pra mim" e coisas do tipo.

Mas coube aos meus pais falar NÃO. Ensinar que as coisas são merecidas na vida, que existe hora certa para tudo, e que muitas vezes pequenos rituais e agrados são muito mais especiais do que qualquer presente. Tenho guardadas no coração lembranças tão doces da minha infância, e absolutamente nenhuma delas envolve algo "comprado". Só as que tem meu cachorro Prit, um vira-lata que nos custou 5 mil cruzeiros, que sairam de nossa mesada.

Não estou falando que a gente não tinha brinquedos, pelo contrário. Tinhamos muitos. mas eles não marcaram minha lembrança tanto quanto passeios, viagens, e pequenos rituais só nossos. E hoje estou criando meus próprios rituais com meus filhos, e vejo quanto isso marca a alma deles.

Eu cresci com esses valores impressos na minha alma, e hoje eles são parte fundamental de quem eu sou. Eu não tenho casa própria, por exemplo. E sinceramente não tenho a menor vontade de ter. Respeito quem sente segurança em ter uma casa própria e até entendo. Mas EU não gostaria de ter. Entre passar 20 anos pagando por um imóvel ou usar o dinheiro hoje para dar para meus filhos uma excelente escola, uma qualidade de vida boa, oportunidades, viagens, eu fico sem dúvida nenhuma com a segunda opção. Para mim é uma escolha entre um e outro, então tenho que optar. E eu opto pelo viver, pelo experimentar, pelo saborear, pelo sentir, pelo ser...

E hoje já começo a colher o fruto do trabalho que faço desde o dia que eles nasceram. E vejo que estou conseguindo -tanto quanto é humanamente possível para crianças de 4 anos- transmitir esse desapego das coisas materiais e valores infinitamente mais valiosos.

Algumas regras da nossa casa: Para família não se vende, se dá. / Um família tem que cuidar sempre um do outro / Nunca dedure seu irmão, olhe para os seus erros. / Divida.

Pequenos gestos que enchem meu coração de alegria e orgulho:
Estávamos na Casa do PAC (aquela casa que eu contei que vamos aqui) e a Giovanna, 6 anos, estava no meu colo junto com a Alice. Eu propus para elas para fazermos um chá de bonecas na nossa próxima visita, e a Alice sugeriu que fosse um chá de Barbies. A Giovanna falou que ela não tinha nenhuma Barbie (nessa hora eu quase morri, queria levar ela pra casa!) e na mesma hora, sem eu me meter nem incentivar a Alice colocou a mão na mão dela e falou: "Não tem problema, eu tenho muitas, eu dou uma pra você"

No playground do McDonalds, a Alice chegou na mesa chorando porque um menino tinha chamado ela de bebê. O Dudu, que estava na mesa ainda comendo, levantou sem perguntar nada pra gente e começou a ir de mesa em mesa, interrogando os meninos maiores: "Foi você que chamou minha irmã d bebê?" Um por um. Pode parecer besteira, mas eu nunca vi ele se defender, mas quando a irmã estava magoada ele virou um leão!

São momentos como esses que me mostram que estou no caminho certo... Me provam que quando eu morrer vou deixar para eles a mais valiosa das heranças.

Extraído Rede Mulher e Mãe

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